Cadastra-se para receber notícias
Comissão de Agricultura

08/04/2005 12:00

Tamanho da fonte

Uma forte polêmica entre as potencialidades desenvolvimentistas e os altíssimos riscos que podem advir do programa de florestamento da Metade Sul, que o Governo do Estado vem implantando em diversos municípios da região, dominou a primeira parte da reunião extraordinária da Comissão de Agricultura, Pecuária e Cooperativismo da Assembléia Legislativa, na sexta-feira (8)pela manhã na Câmara de Vereadores de Pelotas.

Sob a coordenação do presidente da Comissão, deputado Elvino Bohn Gass (PT), representantes das empresas responsáveis pelo projeto, organismos públicos, organizações não-governamentais, entidades religiosas e civis, deputados, vereadores e cidadãos de toda a região, lotaram o Plenário da Câmara pelotense. "Estamos falando de uma lavoura de 100 mil hectares de um só cultivo, o eucalipto. Se, por um lado, a instalação de uma ou duas plantas de empresas de celulose pode representar uma alternativa para a diversificação econômica da Metade Sul, de outro, os riscos ambientais, sociais, culturais e até mesmo financeiros, são também enormes," alerta o deputado Bohn Gass. A Comissão de Agricultura, segundo ele, vai continuar acompanhando o desenvolvimento do projeto e deve, inclusive, emitir um Parecer de Comissão sobre o tema depois de conhecer os estudos das empresas e visitar locais no país onde experiências semelhantes foram desenvolvidas.

Na reunião, representantes das empresas Ageflor e VCP - Votorantim Celulose e Papel, expuseram as vantagens do projeto. "Estamos diante de uma revolução verde," disse José Lauro de Quadros, diretor-executivo da Ageflor garantindo que o projeto regula o ciclo hidrológico, incrementa a biodiversidade, regula os elementos climáticos, beneficia a fauna, reduz a pressão sobre as florestas nativas e ainda garante a qualidade das águas.

Para o engenheiro agrônomo da VCP, José Maria de Arruda Mendes Filho, só na fase inicial do projeto, em 2004, foram gerados 840 empregos, número que deve chegar a 1.000 no final de 2005. Segundo ele, a VCP é uma empresa que toma todos os cuidados ambientais, faz pesquisa, investe em educação ambiental e inclui outras culturas como o cultivo de melancias, de arroz e até mesmo pecuária e apicultura entre as plantações de eucaliptos. "Vamos ocupar, no máximo, 50% das propriedades que compramos com eucaliptos. O restante é área preservada e para outras culturas", garante ele.

"É tudo mentira", reagiu Valmir José Noventa, da Rede ALerta Contra o Deserto Verde, ONG que atua nos estados do Espírito Santo, Bahia e Minas Gerais, onde a instalação de plantas de empresas de celulose foram implantadas com gravíssimas conseqüências sociais, ambientais e econômicas. Valmir, que é agricultor e mora numa área próxima a uma "floresta de eucaliptos da Aracruz" no Espírito Santo, disse ter "medo de ter que ensinar meus filhos a comer eucalipto" porque na região onde mora, a grande maioria dos agricultores foi expulsa do campo, mais de 20 córregos secaram totalmente, as culturas tradicionais foram invadidas, as pragas migraram das plantações de eucaliptos para as lavouras dos produtores familiares vizinhos e as empresas geraram pouquíssimos empregos. "Estas empresas falam de futuro mas seus negócios tem impactos negativos de todas as naturezas. Não estamos falando de florestas, mas de monocu ltura de eucaliptos em área gigantes onde grandes empresas se tornam latifundiárias de uma cultura só," afirmou Valmir.

Ricardo Carreras, do Movimento Mundial pelas Florestas - WRM- do Uruguai, retomou o argumento de que as empresas de celusose se apresentam como criadoras de florestas mas que, na verdade, são plantações de uma só arvore. Quando vejo as exposições dos empresários fico pensando que existem dois mundos: virtual, que é bonito, com um marketing ambiental bem feito pelas empresas, e outro, que é o das comunidades que vivem nas proximidades ou dentro destes projetos. "Os impactos são terríveis: a água desaparece em todos os lugares onde há plantações de eucaliptos deste porte, a biodiversidade morre, nada cresce debaixo de uma plantação dessas, os animais somem e os que sobram migram para as propriedades vizinhas, comendo o que enxergam pela frente," garante Ricardo. Ele defende a realização de pesquisas independentes para que se tomem decisões adequadas em situações desta natureza. "Na verdade, projetos deste tipo são enormes latifúndios estrangeiros dentro dos países e isto, portanto, é um problema político, não ambiental", conclui.

Compartilhe:

  • Facebook
  • Share on Twitter