Cadastra-se para receber notícias
Máfia gaúcha na saúde

16/06/2005 12:00

Tamanho da fonte

Doze pessoas foram denunciadas à Justiça por venda de cirurgias e outros procedimentos que eram pagos pelo SUS no Rio Grande do Sul. O esquema de cobrança irregular, descoberto por uma força-tarefa integrada pelo Ministério Público Estadual e pela direção do GHC - Grupo Hospitalar Conceição, envolveria funcionários de hospitais, médicos, assessores parlamentares, vereadores e pelo menos um deputado. A investigação que mostrou uma verdadeira máfia da saúde agindo no Estado, identificou o que, segundo o deputado Elvino Bohn Gass (PT), se pode chamar de "tráfico" de cirurgias.

A investigação começou em 2003 quando a direção do GHC recebeu uma denúncia. Na época, um familiar da paciente Nelci Bogado Pinheiro Martins, do município de Horizontina, relatou a tentativa de cobrança de R$ 400,00 para a realização de uma cirurgia na especialidade de ortopedia, que já estava agendada no Hospital Cristo Redentor. Conforme a própria Nelci, a informação de que ela precisava pagar para garantir a realização da cirurgia lhe foi comunicada no albergue mantido pelo deputado estadual Vilson Covatti, onde ficou hospedada.

Filmagens, gravações e mais de 200 depoimentos - A partir desta denúncia, os promotores iniciaram um extenuante trabalho de investigação que durou longos dezoito meses, incluiu escutas telefônicas, filmagens e o depoimento de mais de 200 pessoas que confirmaram o esquema, do qual participavam até mesmo secretários municipais de saúde. Pelo que apurou o Ministério Público, as operações e outros procedimentos, que deveriam ser gratuitos, eram feitos mediante a cobrança de valores que variavam desde R$ 75,00 até R$ 10.000,00. Os promotores identificaram 26 casos como o de Nelci, todos procedimentos irregulares envolvendo também outros hospitais que prestam serviços ao SUS.

O esquema funcionava mais ou menos assim: atravessadores políticos identificavam pessoas doentes no interior do Estado, ofereciam a hospedagem nos albergues e, em troca da garantia do atendimento, da internação e da cirurgia (dada pelos médicos e funcionários dos hospitais que se encarregavam de atestar a urgência do atendimento mesmo que o caso não fosse emergencial), faziam a cobrança. "Temos aí não um, mas vários crimes. A denunciada participação de médicos, parlamentares, secretários e assessores implica que houve concussão (usar da função para obter vantagem), falsidade ideológica e corrupção passiva. Quem já esteve numa fila do SUS sabe o drama que é. Pois este bando furava a fila do SUS o que significa que pessoas podem ter morrido enquanto esperavam, honestamente, a sua vez para serem atendidas. Espero, sinceramente, que uma vez comprovadas estas denúncias do Ministério Público, todos tenham a punição que merecem," avalia o deputado Elvino Bohn Gass.

O "negócio" dos albergues - O parlamentar chama a atenção também para o atentado contra a ética cometido pelos parlamentares que integrariam o esquema. "Ora, um deputado que facilita a vida de uma pessoa doente, terá sempre o reconhecimento dela e de seus familiares. Este reconhecimento depois é cobrado na forma de voto. A ética parlamentar, portanto, passa longe desta prática", afirma Bohn Gass. Foi por isso que a bancada do PT formalizou à Comissão de Ética do Legislativo um pedido para que seja averiguado o possível envolvimento do deputado Vilson Covatti (PP) com o esquema de marcação de consultas, internações e cirurgias.

Segundo a edição de maio deste ano do Jornal Extra-Classe ( publicação do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul), pelo menos cinco outros parlamentares além de Covatti, também manteriam albergues na Capital e no interior. E não são raros os casos em que os tais albergues, para sua manutenção, recebem verbas assistenciais (R$ 25 mil por ano) que cada deputado estadual dispõe para destinar a entidades de cunho social.

O PT é contra a utilização desta verbas por entender que elas se prestam ao "curralismo" eleitoral e já apresentou, mais de uma vez, projetos para acabar com esta verdadeira farra com o dinheiro público mas nunca conseguiu os votos necessários. "É uma verba que sustenta e estimula o clientelismo, esta praga que infelizmente ainda não foi exterminada nas casas legislativas", diz Bohn Gass.

Segundo o diretor-presidente do Grupo Hospitalar Conceição, João Mota, há a necessidade de uma investigação sobre o papel, as condições sanitárias e as formas de acesso aos serviços de saúde patrocinadas pelos albergues mantidos por parlamentares para hospedar pacientes oriundos do interior do Estado porque nestes locais é que aconteceria o "tráfico" das cirurgias.

Os denunciados

Entre os denunciados estão sete médicos, Carlos Garcia Cademartori, Jorge Alberto Frischenbruder, José Nélson Borba Gonzalles, Desidério Fulber, Ilídio José Theisen, Mauro Oliveira de Lucas e Jorge Affonso Silveiro Schreiner. Também foram denunciados o assessor parlamentar (do deputado Vilson Covatti) Edson Roberto Cavalheiro; a funcionária do albergue Nossa Senhora Aparecida (também do deputado Covatti) Irena Vantzing Geraldo; o vereador Odi Paulo Lorenzini, do município de Relvaldo e ainda Delmir Bandiera, o "Bandi". O intermediador do esquema, que segundo a denúncia atua nas duas frentes (junto aos gabinetes parlamentares e às vítimas, fazendo a cobrança), seria Ricardo de Gasperi Neu, um ex-assessor da direção do GHC que também foi denunciado.

Compartilhe:

  • Facebook
  • Share on Twitter