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500 anos esta noite (Poema de Pedro Tierra)

03/11/2010 09:29

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De onde vem essa mulher

que bate à nossa porta 500 anos depois?

Reconheço esse rosto estampado

em pano e bandeiras e lhes digo:

vem da madrugada que acendemos

no coração da noite. 

De onde vem essa mulher

que bate às portas do país dos patriarcas

em nome dos que estavam famintos

e agora têm pão e trabalho?

Reconheço esse rosto e lhes digo:

vem dos rios subterrâneos da esperança,

que fecundaram o trigo e fermentaram o pão. 

De onde vem essa mulher

que apedrejam, mas não se detém,

protegida pelas mãos aflitas dos pobres

que invadiram os espaços de mando?

Reconheço esse rosto e lhes digo:

vem do lado esquerdo do peito.

Por minha boca de clamores e silêncios

ecoe a voz da geração insubmissa

para contar sob sol da praça

aos que nasceram e aos que nascerão

de onde vem essa mulher.

Que rosto tem, que sonhos traz?

Não me falte agora a palavra que retive

ou que iludiu a fúria dos carrascos

durante o tempo sombrio

que nos coube combater.

Filha do espanto e da indignação,

filha da liberdade e da coragem,

recortado o rosto e o riso como centelha:

metal e flor, madeira e memória.

No continente de esporas de prata

e rebenque,

o sonho dissolve a treva espessa,

recolhe os cambaus, a brutalidade, o pelourinho,

afasta a força que sufoca e silencia

séculos de alcova, estupro e tirania

e lança luz sobre o rosto dessa mulher

que bate às portas do nosso coração. 

As mãos do metalúrgico,

as mãos da multidão inumerável

moldaram na doçura do barro

e no metal oculto dos sonhos

a vontade e a têmpera

para disputar o país.

Dilma se aparta da luz

que esculpiu seu rosto

ante os olhos da multidão

para disputar o país,

para governar o país. 

 Brasília, 31 de outubro de 2010

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