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Koutzii diz que Tarso amplia aliança e segue à esquerda

22/11/2010 11:15

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Entrevista do ex-deputado Flávio Koutzii ao Jornal do Comércio

O ex-deputado Flavio Koutzii voltou a participar de eleições neste ano, atuando como um dos coordenadores da campanha de Tarso Genro (PT) ao governo do Estado. A partir de 2011, ele comandará um gabinete de assessoramento ao futuro titular do Piratini. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Koutzii analisa as mudanças no PT gaúcho em relação à sua primeira experiência no comando do Estado, como a abertura a um leque maior de alianças para governar. E projeta que Tarso, mesmo dialogando com um grupo heterogêneo de partidos políticos, se manterá em um centro gravitacional à esquerda. O petista ainda avalia a relação com a imprensa e comenta a polêmica sobre as Parcerias Público-Privadas (PPPs).

Jornal do Comércio - O senhor esteve afastado da política. Por que decidiu retornar na campanha de Tarso Genro?

Flavio Koutzii - Estava afastado da condição de disputar (eleições), mas me mantive no PT, atento à política, acompanhei o governo Yeda (Crusius, PSDB). Quando se estabelece a candidatura de Tarso, pensei que dediquei esses últimos 20 anos à política do Rio Grande do Sul. E tanto na gestão de (Germano) Rigotto (PMDB) quanto na de Yeda - que são parecidas pelo suporte político que tiveram -, o campo mais conversador sempre esteve presente. Então, achei que deveria ingressar na campanha. E Tarso me convidou. Mas se não tivesse convidado, eu me ofereceria.

JC - E o seu papel no governo do Estado?

Koutzii - Tarso vai fazer um gabinete de assessoria superior. Será uma estrutura ao lado do gabinete dele, que terá cinco pessoas e eu serei o coordenador.

JC - Não tem status de primeiro escalão?

Koutzii - Não. Tenho 67 anos e dificuldades de saúde, que são controladas, mas pesam. Então, manifestei que não devo ser secretário de Estado. Fui chefe da Casa Civil (no governo Olívio Dutra) e sei exatamente o que é. A Casa Civil está com (Carlos) Pestana (PT), um jovem capaz, experiente. Não estou dizendo que eu fosse para a Casa Civil. Poderia ser outra (secretaria) menos pesada. Mas a lógica de um secretário de Estado é de uma superaceleração, ainda mais no governo Tarso, que terá uma característica muito ativa. É preciso ter um tranco acelerado. Eu não garantiria isso. Mas fui sondado (para ser secretário) pelo Tarso.

JC - O senhor retorna à política no ano em que termina o mandato do presidente Lula.

Koutzii - Considero que houve o fechamento de um ciclo histórico. Refiro-me aos oito anos do governo Lula (PT). A Era Lula desenvolveu uma política com erros, mas com resultados exponenciais, que alteraram elementos importantes da sociedade brasileira. Exemplo: os 28 milhões de habitantes que saíram da linha de pobreza e os 30 milhões que ascenderam à classe média baixa. Temos outro exemplo no porto de Rio Grande - a legislação brasileira de então colocava: "Quer construir uma plataforma de petróleo? Cingapura é o melhor lugar, porque é o melhor preço internacional". Teve ainda a política internacional...

JC - O senhor mencionou um bloco conservador nos governos Yeda e Rigotto, em que estavam PTB e PP, cortejados por Tarso. As conquistas do governo Lula justificam a busca pela reprodução dessa aliança, mesmo com partidos não afinados ideologicamente?

Koutzii - Sim, do ponto de vista nacional foi o que aconteceu. Aqui vai ser um pouco diferente. No primeiro discurso de Tarso, no dia da vitória, ele reiterou os compromissos assumidos na campanha e disse: "Vou convidar PTB e PDT, mesmo que tenha apoiado outro candidato". Mencionou outros partidos (PP) e disse que não incluía nessa hipótese o PMDB gaúcho.

JC - Quase a mesma base do governo federal.

Koutzii - Lula constituiu um leque de alianças que, na minha opinião, foi frágil e instável: lhe deu maioria no Congresso, às vezes sim, às vezes não, dependendo do assunto. Uma parte da direita diz que Lula tem domínio total sobre o Parlamento. Na verdade, é o contrário. A reforma tributária, assim como a reforma política, nunca tiveram a mínima chance de sair, porque a base não tinha coesão para tanto.

JC - O PT volta ao governo do Estado com um tom mais brando. Tem relação com a experiência de Lula?

Koutzii - Tarso fez uma campanha uniforme, não teve altos e baixos, denúncia, bate-boca. E a moldura dos Anos Lula se derrama sobre o Rio Grande do Sul, neutralizando aquele nível intensíssimo de recusa ao PT. Tarso passou por quatro ministérios, então, foi o responsável pela solução de problemas na educação, segurança. E também tiramos algumas lições da nossa experiência como governo do Estado. Mesmo dentro do PT havia opiniões diferentes quanto à forma como o governo era conduzido. E provavelmente algumas delas eram certas. Mas também acho que há coisas muito valiosas que fizemos. A partir das dificuldades que encontramos há também uma leitura - não só do candidato como do PT e do PSB e do PCdoB - de que precisávamos tirar lições.

JC - Quais?

Koutzii - Não quero me somar a uma simplificação injusta. Foi um governo muito expressivo, complexo... Quando a governadora (Yeda) diz que foi hostilizada, não tem noção do que foi a experiência do governo Olívio, quase um "estado de sítio".

JC - Mas o senhor concorda que o PT retorna ao governo do Estado com um novo perfil?

Koutzii - O PT mudou, especialmente depois de 2002, a partir do momento em que somos governo nacional. Como conseguir implementar algumas das metas e ter governabilidade no País? Isso inclui o tema das alianças amplas, uma mudança do PT. O fato que tenham aparecido questões importantes no trato do dinheiro público também alterou a imagem do partido. O projeto do PT se altera ao longo dessa década. Já há uma mudança expressiva do PT, que antecede o episódio eleitoral. No Rio Grande do Sul, a vice da prefeitura de Canoas é do PP. E depois de duas décadas em que fomos criticados por isolamento, que obviamente sempre foi procurado por um esforço de outras forças políticas.

JC - Tarso potencializa a mudança do PT no Estado?

Koutzii - Tarso potencializa a retomada de políticas que só o PT conduziu nesse Estado. É um personagem político que acentua essas características. Gostaria de lembrar que, quando aconteceu o mensalão, Tarso foi posto como presidente provisório do PT para enfrentar aquele tema. Ele defendeu um processo: "Não tem responsável nessa história? Vamos fazer uma comissão de ética e enfrentar." Quando percebeu, e rápido, que as forças que em parte tiveram responsabilidade nesse assunto tinham enorme peso nas direções partidárias, e que não queriam levar esse processo adiante, o que ele fez? Saiu. Estou trazendo esse episódio para caracterizar o personagem. Além disso, foi um dos elaboradores da chamada Mensagem (ao Partido), uma força que soma várias tendências que tem uma percepção mais crítica sobre o próprio PT. Na eleição interna, esse setor foi derrotado, o que revela certa mudança do PT. Esse setor mais crítico é minoritário, e o PT é principalmente sua maioria.

JC - É um movimento para o centro?

Koutzii - A formação política e ideológica do Tarso é sólida. Ele foi ministro, teve que lidar com assuntos sensíveis, é um personagem maduro para ações de concertação. Organiza e começa a fazer operar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (Conselhão), um lugar interessante, com personalidades muito representativas que acabaram convergindo. E Tarso tem uma longa trajetória na esquerda, na qual ele foi revisando várias coisas. Mas não perdeu centros de gravidade do seu pensamento. Então, não é só o cara que tem hoje mais maleabilidade e vai inaugurar um período aqui com alianças mais amplas. É ao mesmo tempo, dos grandes dirigentes nacionais do partido, quem tem um centro de gravidade à esquerda. Só que o tino político permitirá um conjunto de políticas e, ao mesmo tempo, preservar a governabilidade.

JC - Ou seja, por mais que se ampliem as alianças, o programa está mantido.

Koutzii - A ampliação do leque de sustentação é imprescindível para não cair no isolamento, que obviamente já vivemos. Dá mais governabilidade, maior peso no Parlamento, e ao mesmo tempo confirma que a fala de campanha se materializou.

JC - E o alinhamento ao governo Dilma Rousseff (PT), até que ponto favorece?

Koutzii - Vai favorecer muito. Porque se no governo Lula, ao contrário do que se diz, já havia uma posição republicana - ele investiu R$ 31 bilhões (no Rio Grande do Sul), revitalizou toda uma área de Rio Grande. Então, isso vai ajudar onde for necessário ter negociações.

JC - Como o senhor avalia o caso das PPPs do Estado que estão em discussão - ERS-010 (Rodovia do Progresso) e complexo prisional de Canoas?

Koutzii - Tenho certeza de que não é um debate sobre as PPPs, sobre combinar investimento privado e público. E isso o Tarso disse claramente. Na campanha, ele falou que, no caso da prisão em Canoas, tem dúvidas se - sendo um dever do Estado prender, condenar - a esfera prisional deve ficar sob a responsabilidade privada. O tema é outro do ponto de vista do debate sobre PPPs. Nós, de certa maneira, já temos essa questão resolvida.

JC - O deputado Raul Pont pretende questionar a ERS-010 na Justiça.

Koutzii - O que o Raul disse? Os números são muito impressionantemente negativos. Ele é um fiscal. Então, Raul chamou a atenção para isso. Demonstrou sua estranheza frente a vários elementos. Então, não é uma discussão sobre PPP, é uma discussão sobre contrato. Não é uma discussão sobre altos valores, é sobre suspeitos valores. A ERS-010 é extremamente necessária, urgente, é PPP, vale a pena. E nós, do futuro governo, a consideramos absolutamente prioritária. Mas ao receber o projeto, verificamos algumas cifras muito difíceis de entender. Eles vão cobrar pedágio e ainda vão receber esses R$ 77 milhões por ano.

JC - De que maneira a discussão sobre PPPs pode impactar no processo de transição?

Koutzii - A transição inclui isso, vai dar um pouco de atrito. Mas a conduta do Tarso e da governadora está estabelecida. Agora, se tiver um sapo no meio caminho, não se vai engoli-lo. Aparece um assunto que envolve números muito relevantes e que não são claros. E nesses setores, geralmente, fazem contratos que são leoninos para com o Estado e maravilhosos para a parte privada. Vamos olhar. O governo tem a sua linha e os deputados têm a sua autonomia para se expressar. Os deputados do PT não são um apêndice do governo.

JC - Como o senhor projeta a relação da imprensa com o governo Tarso Genro?

Koutzii - Não se repetirá o que aconteceu (no governo Olívio). Primeiro porque estamos falando de quase dez anos, com o ciclo Lula. Não tem como olhar mais só do ponto de vista da aldeia. Dois, o governo Dilma vai ser a moldura nacional que confirmará muitas coisas positivas.

JC - Dilma terá um embate mais forte com a mídia?

Koutzii - De dois em dois se produz um tema - guerra cambial, CPMF, Enem. Agora, o pior de todos é a Folha de S.Paulo pedir a ficha e as anotações dos oficiais que torturaram a presidente. Considero uma "indecência superior" o acolhimento pelo Supremo Tribunal Militar para abrir a ficha da Dilma. A Folha e o Globo - quando faz aquela capa da revista Época com a ficha dela - tentaram trazer para o universo eleitoral a ideia de que ela é uma terrorista, uma perigosa assassina, coisa que á falsa.

Perfil

Flavio Koutzii, 67 anos, é natural de Porto Alegre. Cursou Filosofia na Ufrgs, onde presidiu o Centro Acadêmico, e também estudou Economia, mas deixou a graduação em 1970 por causa da ditadura militar. Fixou-se na Argentina em 1972 e participou de uma organização política até ser detido. Ficou encarcerado de 1975 a 1979. Seguiu para a França e viveu em Paris por cinco anos, período em que concluiu o curso de Sociologia na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. De volta ao Brasil, em 1984, filiou-se ao PT. Em 1986, concorreu a senador, mas sua primeira vitória nas urnas se deu em 1988, eleito vereador de Porto Alegre. Em 1990, obteve vaga na Assembleia Legislativa, sendo reeleito deputado estadual em 1994, 1998 e 2002. De 1999 a 2002, foi chefe da Casa Civil do governo Olívio Dutra (PT). Em 2006, depois do mensalão, decidiu que não concorreria à reeleição. Em 2008 e 2009, assessorou o presidente do Tribunal de Justiça. Foi um dos coordenadores da campanha de Tarso Genro (PT) ao governo do Estado neste ano.

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