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Fundo público, sim. Ou só patrão será político.

06/10/2017 04:06

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Fundo público, sim. Ou só patrão será político.

// Em nome da transparência, digo às pessoas que acompanham meu mandato que há uma razão muito simples para eu ter votado a favor do financiamento público de campanhas: votei para que o operário possa ser candidato nas mesmas condições que o patrão.

Com o fundo público, o dinheiro para as campanhas deve ser dividido de forma igualitária entre candidatos. Com o financiamento empresarial, só os ricos ou os que entram na política para defender os ricos, é que podem financiar suas campanhas. Simples assim.

O valor do fundo assusta, coisa de R$ 1,7 bilhão. É alto mesmo. Mas para termos ideia real desses valores, devemos saber: as últimas campanhas custaram quatro ou cinco vezes mais, perto de R$ 6 bilhões.

Pode-se argumentar: esse dinheiro não era público. Eu pergunto:  - Não era? De onde você, cidadão, pensa que saíram os milhões que JBS, Odebrecht... doaram às campanhas? Do lucro ou dos próprios salários é que não foi.

Há quem diga: políticos já ganham bem, podem guardar dinheiro para campanha. É verdade. Mas professores, metalúrgicos, sapateiros, pedreiros, vendedores, enfermeiros? E a maior parte do povo negro? E a juventude? E as lideranças comunitárias? E os agricultores familiares? E os índios? Como é que ficam? Eles são brasileiros, honestos, trabalhadores e, portanto, têm toda a legitimidade para representar a sua gente. Mas não ganham altos salários, mal conseguem suprir necessidades básicas. Então, como é que vão pagar suas campanhas se quiserem disputar uma vaga na política? Imaginem uma professora estadual do RS, que há 21 meses está com salário parcelado... Que chance terá se quiser representar seu povo, sua categoria? Ou alguém aí acha que os atuais políticos são melhores do que a professora com salário atrasado pelo Sartori? Ou alguém acha que política não é coisa pro povo?

É aí que o fundo público entra. É para garantir que qualquer cidadão – e não apenas os abastados – possam entrar na política. É para tentar estabelecer um controle maior sobre as campanhas e reduzir os custos, afinal, todo mundo sabe: hoje, os maiores abastecedores dos partidos são grandes grupos empresariais cheios de interesses e negócios dentro do Estado. É bem fácil de constatar: há deputados cujas campanhas foram inteiramente financiadas por duas ou três grandes empresas. E todos os votos deles são para proteger os interesses...desses financiadores.

Haveria outras opções. Talvez, sim, mas quais?

Então, tenho dois pedidos: antes de sair por aí repetindo argumentos cheios de indignação justa, mas vazios de conteúdo e lógica, que a gente reflita um pouco mais. E que não caia na esparrela de uns e outros que estão com as malas cheias e, depois de fazer a demagogia contra o fundo público, tomarão posse dele também.

Fundo público não é pegar o dinheiro que poderia ir para a saúde, a educação e a segurança e botar na mão de políticos para que eles continuem políticos. Não! Fundo público é a única alternativa real, de tentar impedir que a política seja dominada pelo dinheiro.

Elvino Bohn Gass

Deputado Federal (PT/RS)

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