Não se trata de fé. Trata-se de estratégia. Jair Bolsonaro e seu entorno transformaram a religião em instrumento político permanente
O Brasil assiste, mais uma vez, a um espetáculo conhecido e perigoso: quando a Justiça avança e a realidade cobra responsabilidades, o bolsonarismo responde com versículos bíblicos, orações encenadas e discursos sobre “perseguição espiritual”. O nome de Deus é convocado não para promover justiça, mas para tentar deslegitimar o Estado de Direito.
Não se trata de fé. Trata-se de estratégia. Jair Bolsonaro e seu entorno transformaram a religião em instrumento político permanente. Sempre que surgem investigações, denúncias ou decisões judiciais desfavoráveis, a reação é a mesma: jejuns convocados nas redes, lives com pastores aliados, frases como “está nas mãos de Deus” e a tentativa de apresentar processos legais como ataques do “mal” contra os “escolhidos”.
É o mesmo grupo político que homenageou o torturador Brilhante Ustra, relativizou a ditadura, protegeu milicianos e naturalizou a violência como método de governo. Agora, tenta se blindar atrás da Bíblia. Como denunciou Jesus, “este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mt 15,8).
A prática sempre revelou a farsa. Bolsonaro negou vacinas, contribuiu para centenas de milhares de mortes evitáveis, armou a população, desmontou políticas de combate à fome, atacou povos indígenas, destruiu o meio ambiente e fez da mentira uma engrenagem central de sua ação política. Se “a verdade liberta” (Jo 8,32), o bolsonarismo aprisiona — pelo medo, pela desinformação e pela manipulação da fé.
Essa manipulação inclui mentiras reiteradas sobre Lula e o campo democrático. Espalham que Lula fechará igrejas, perseguirá cristãos ou governa contra Deus. Nada disso é verdade. Lula governou respeitando todas as religiões, garantiu liberdade de culto e jamais confundiu fé com política de Estado. Defender o Estado laico não é atacar a religião; é protegê-la do uso oportunista.
Não existe “guerra espiritual” na política brasileira. O que existe é um debate que deveria ser democrático, laico e saudável sobre quem governa o Brasil e com qual projeto: um projeto de inclusão ou de exclusão; de vida ou de morte; de políticas públicas ou de fanatismo eleitoral.
Jesus não esteve ao lado dos poderosos que usaram a religião para oprimir. Foi o torturado, o perseguido, o condenado pelo poder de seu tempo. Defendeu mulheres, pobres, estrangeiros e excluídos. Pregou justiça, misericórdia e amor ao próximo — valores incompatíveis com o ódio e a mentira transformados em método político.
Usar o nome de Deus para atacar instituições, dividir o país e fugir da responsabilidade é tomar Seu nome em vão. É fazer da fé um escudo para a impunidade. E, como a história e o Evangelho mostram, essa hipocrisia sempre acaba desmascarada.

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