USP detecta que preço do leite ao produtor subiu 14,5% desde o início do ano, indicando tendência de alta também nos supermercados. Alexandre Padilha e Bohn Gass analisam causas e efeitos dessa crise;

Pesquisa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP) sobre o preço do leite traz uma notícia preocupante tanto para as famílias brasileiras quanto para os produtores e as indústrias.

Segundo a análise, o preço do leite ao produtor já acumula aumento real de 14,5% nos cinco primeiros meses do ano. E junho pode fechar com nova alta de 5%. 

Com isso, a expectativa é de que o preço do leite e de produtos derivados continue subindo. Vale lembrar que, de maio de 2021 a abril passado, o leite longa vida subiu 23,4%, muito acima da inflação do período, que ficou em 12,13%.

Bohn Gass: a culpa não é do produtor

O deputado federal Bohn Gass (PT-RS) concorda com Padilha na responsabilização do atual governo por esse quadro. “O elevado preço para o consumidor não é culpa do agricultor”, garante o parlamentar.

“O agricultor, para produzir, precisa usar diesel, que está caríssimo; precisa adubar a pastagem, e o adubo está caríssimo; precisa comprar sementes, que estão caríssimas. Os insumos todos estão caríssimos e são responsabilidade do governo, porque todos são preços que poderiam ser controlados”, explica.

Ao mesmo tempo, lembra Bohn Gass, os trabalhadores estão com o salário congelado e consomem cada vez menos, o que também ajuda a elevar o preço nos supermercados. E mesmo que o preço do leite pago pela indústria esteja subindo, essa alta não compensa. “Muitos agricultores estão, neste momento, inclusive, deixando de atuar na produção do leite, em razão desses altos custos”, ressalta.

Políticas de segurança alimentar abandonadas

Em entrevista ao Globo Rural, a pesquisadora Natália Grigol, do Cepea/USP, confirma o que diz o deputado. Segundo ela, a produção de leite cru caiu 8,2% desde o começo do ano, e o aumento do preço não foi suficiente para reaquecer a produção.

“Apesar de os gastos com o concentrado terem recuado devido às recentes desvalorizações da soja e do milho, o desembolso do produtor com a alimentação do rebanho segue em patamar elevado”, diz Grigol.

Segundo Bohn Gass, esse quadro que pune tanto os produtores quanto os consumidores, prejudicando especialmente as crianças, é resultado do abandono das políticas de segurança alimentar que existiam nos governos Lula e Dilma.

“A solução seria nós termos custos mais baixos, tanto da energia, dos insumos; juro diferenciado, e aí entra o Plano Safra para ter o juro diferenciado e crédito com esse juro subsidiado; e, ao mesmo tempo, estoques de alimentos para os animais, para que a gente tenha uma equação melhor sobre isso”, observa Bohn Gass.

Padilha: Brasil está produzindo uma geração de desnutridos

Essa disparada do preço do leite, no momento em que 33 milhões passam fome e quase 60% dos brasileiros estão em insegurança alimentar, fará surgir no país uma geração de desnutridos, com impactos que podem durar anos, alerta o deputado federal e ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT-SP).

“Isso tem provocado situações como a que me contou uma mãe na maior favela da cidade de São Paulo, Heliópolis. Três meses atrás, ela tinha decidido que o leite só seria para as crianças. Os adultos da casa não tomariam mais. Encontrei essa senhora na semana passada e ela disse que hoje a situação é pior. Ela está sendo obrigada a diluir o leite em água para que as crianças tenham o gostinho de estar tomando leite, embora não estejam ingerindo os nutrientes necessários”, conta Padilha.

Para o deputado, essa é uma das marcas do atual governo. “A crueldade do governo Bolsonaro, que tirou os médicos do Mais Médicos da população brasileira, é agora tirar o prato de comida e o leite das crianças”, avalia.

Da Redação da Agência PT

Compartilhe

No responses yet

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.