Publicado orginalmente em Sul21

Por Elvino Bohn Gass e Miguel Rossetto (*)

O Brasil vive toda a dramaticidade e o resultado cruel da dependência tecnológica. Não somos capazes de produzir no país todos os insumos necessários para vacinar nossa população contra a COVID-19. Somos, sim, dependentes de que outros países nos entreguem estes produtos com custo e prazos definidos por eles. Mesmo com instituições altamente qualificadas como Fiocruz, Butantã e universidades, não conseguimos responder a esta crise como outros países o fizeram. China, Rússia, Índia, Cuba, Inglaterra, Alemanha, EUA dispõem de uma capacidade de pesquisa e produção de vacinas que, na verdade, nos foi retirada. Com enorme dor e sofrimento aprendemos o quanto custa a falta de planejamento, de investimentos em Ciência e Tecnologia, o preço altíssimo de não saber fazer.

Agora, uma nova fábrica de vacinas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é anunciada no Rio de Janeiro, o que permitirá grande aumento na produção de insumos para abastecer o país.Com investimentos de R$ 3,4 bilhões, a nova fábrica transforma a Fiocruz no maior centro de produção de produtos biológicos da América Latina e um dos mais modernos do mundo, aumentando em até quatro vezes a produção de vacinas e biofármacos para atender prioritariamente às demandas do Sistema Único de Saúde (SUS).

Aprendemos o custo da dependência tecnológica? Do não saber fazer? Do não investir para saber fazer?

Se aprendemos alguma coisa é necessário interromper já a liquidação da CEITEC, única empresa que desenvolve e produz semicondutores (chips)no Brasil e na América Latina. Localizada em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a CEITEC tem um papel decisivo e estratégico no desenvolvimento da indústria de microeletrônica do Brasil.Com investimentos públicos de 800 milhões de reais, e com uma equipe altamente qualificada, está em pleno funcionamento, projetando e produzindo semicondutores, sensores e possui, inclusive, produtos patenteados internacionalmente.

Com equilíbrio financeiro em 2023, é inacreditável que o governo federal utilize como único argumento público para liquidar a CEITEC, mais dois anos de aporte de 10 milhões de dólares/ano! Como justificar, frente aos enormes benefícios a um custo tão pequeno, a liquidação de um investimento desta importância, a destruição deste patrimônio tecnológico único no país, os anos de conhecimento acumulado?A destruição da CEITEC é um desatino, uma insensatez!

O Brasil deve seguir na microeletrônica o mesmo caminho que anuncia seguir com os biofármacos; investir para buscar independência em tecnologia e autonomia de produção, em uma área de difícil aprendizado, que poucos países detêm.

A CEITEC já existe e é reconhecida internacionalmente. É preciso ampliar os investimentos e a escala, atualizar sua gestão e posicionar com força sua atuação junto a outras empresas e instituições de pesquisa do país; jamais liquidá-la.

Destruir a CEITEC, como quer o governo federal, é condenar o Brasil a uma condição de total dependência tecnológica e de uma importação estrutural gigantesca de produtos e serviços da microeletrônica, com um custo altíssimo para o país. É condenar o Brasil a ser uma plataforma de produção de baixo valor agregado, de baixo conteúdo tecnológico.

Outros governos fizeram outras opções e colocaram seus países numa rota de desenvolvimento e de disputa, em um mundo onde a microeletrônica ocupa papel decisivo.

(*) Elvino Bohn Gass é deputado federal do PT/RS. Miguel Rossetto é ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, da Previdência e ex-governador do RS.

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